3 de abr. de 2012

Coisas que eu e Daniel Radcliffe temos em comum

Que jogue a primeira taça de Chandon quem nunca, numa mesa de bar, comparou com os amigos suas peculiaridades anatômicas – se é que assim posso chamá-las. Quem consegue levantar só uma sobrancelha? Quem consegue lamber o cotovelo? Quem consegue arrotar o alfabeto? E por aí vai.

Há duas semanas descobri que algo que faço com minha língua desde criancinha não é tão normal assim. E foi que hoje, lendo o blog da Joey, descobri que o Daniel Radcliffe também consegue fazer o mesmo. É claro que, se eu pudesse escolher uma característica para compartilhar com ele seria o montante da conta bancária a cor dos olhos, mas a genética preferiu que eu fosse capaz de dobrar minha língua em três. Talvez algum dia descubram uma utilidade pra isso.

Se for algum tipo de mutação genética, é muito da sem graça e provavelmente não me garante nenhuma vaga na escola do Professor Xavier. Quem sabe se eu tentar Hogwarts..

29 de jan. de 2012

Tu casa es mi casa

Ontem, mais uma vez, Guimarães me surpreendeu. Inserido na programação da Capital Europeia da Cultura (CEC), foi realizado o evento Mi Casa Es Tu Casa, no qual moradores da cidade foram convidados a abrirem suas portas para receberem atrações musicais e público. Dentre casarões antigos, apartamentos modernos e salas apertadas, 32 espaços foram incluídos no mapa que informava a localização e o horário dos concertos. A atração que iríamos ver, entretanto, era surpresa. Uma lista com nomes famosos e anônimos foi divulgada, e nem mesmo o staff do evento, espalhado pelas ruas da cidade, sabia informar quem iria tocar onde.

O nome que logo saltou à minha vista foi o de Luisa Sobral, uma das primeiras cantoras portuguesas que conheci quando cheguei ao país, e por quem me derreti logo ao primeiro contato. Queria assistir ao concerto da Luisa, mas não sabia onde ia ser. Fiz alguns cálculos e suposições quanto aos horários, espaços e localizações e apostei numa casa próxima ao Centro Histórico, às 21h30. Já escurecia por volta das 18h e começou um burburinho tímido sobre a apresentação de Luisa, que seria no local mais afastado do mapa, às 19h30. Algumas pessoas diziam ter certeza, outras não levaram a informação muito a sério. Pelo sim, pelo não, convenci meus amigos a irmos até lá conferir.

Chegamos ao local, mortos de cansaço depois de uma boa caminhada, e avistamos a sinalização do evento. Perguntei ao rapaz que estava à porta se ele sabia nos dizer qual seria a atração daquele horário e ele confirmou: Luisa Sobral. Subimos até o apartamento, fomos recebidos pelos anfitriões e nos alocamos no chão da sala de estar, onde seria apresentado o pocket show.

Depois de alguns minutos de espera, chega Luisa. “Ela me parecia mais imponente por vídeo”, pensei eu, num julgamento apressado do qual me arrependi logo que a menina entoou a primeira nota. Como uma contadora de estórias numa sala de jardim de infância, Luisa inebriou o modesto público que a rodeava na sala de estar, fazendo brotar sorrisos nos rostos atentos que não piscavam e nem se distraíam diante da gigante mini apresentação composta apenas por violão e percussão – e por uma caixinha de música em uma das faixas.


Então eu me dei conta: toda aquela simplicidade era o que transformava, não só o concerto de Luisa, mas todo o evento, em algo magistral. Guimarães não é uma cidade grande e - tomara - nunca o será. Eventos grandiosos, como foi a tumultuada abertura da CEC no dia 21 de janeiro, não combinam com a cidade. Já o formato do Mi Casa Es Tu Casa, que muito me lembrou o Noc Noc, ocorrido em outubro do ano passado, me parece muito mais acertado. Pude conhecer Guimarães de fora para dentro, pude me mover pela cidade e entrar em casas pelas quais eu só havia passado em frente. Era engraçado ver as pessoas nas ruas, com mapas nas mãos, seguindo não sabiam aonde para assistir não sabiam o quê. Tudo girava em torno da surpresa. A surpresa do interior das casas, a surpresa das atrações musicais. E essas surpresas foram o suficiente para transformar um evento simples em algo grandioso e memorável.

Não houve a necessidade de montagem de palcos, de sistemas de iluminação e de grande preparo acústico. O evento envolveu e se baseou na cordialidade e na participação da população vimaranense que, desde que se iniciaram as obras para a CEC, dava palpites sobre como seria o ano de 2012. Intimista e encantadora, assim como é a cidade de Guimarães, foi a experiência do Mi Casa Es Tu Casa, uma surpresa muito bem-vinda já no primeiro mês de Capital Europeia da Cultura.

26 de jan. de 2012

Uma nostalgia que não é minha

Há muito tempo, numa época na qual eu e você achamos ter vivido mas, na verdade, só chegamos a testemunhar seu último suspiro, existia a fotografia. Era algo sagrado, que transcendia o físico, que imprimia memórias, que sucitava emoções, que dançava uma valsa entre a fantasia e o real. Acontece, meu amigo, que a fotografia foi-se embora pra Pasárgada.


Saudosismo barato. Nostalgia boba. Chame do que quiser. Mas muda-se o tempo e com ele mudam-se as coisas, e muda-se também nossa relação com essas coisas. A fotografia sofreu uma revolução, com tudo de bom e de ruim que uma revolução traz consigo.

Hoje o amigo Google me presenteou com uma série de fotografias magníficas do também magnífico Henri de Toulouse-Lautrec. Nas imagens em questão, o meu pintor francês anão do século XIX preferido está cagando. Literalmente e não.


Repare na graciosidade dele. Na envergadura adquirida para o ato. Na cútis imaculada que cobre seus glúteos. E last, but not least, no resultado de tanta força e empenho empregados: um singelo cocô.
Maurice Joyant, amigo de Lautrec, é o autor da foto, que foi tirada na dita fase de decadência do pintor, um ano antes do mesmo ser internado em um asilo. A ocasião? Joyant queria animar o amigo, que passava por uma fase difícil e tentava compensá-la com excessos de álcool e boemia. Lautrec viria a falecer após três anos, e as fotos entrariam para a história como uma lembrança da amizade de ambos - e, claro, como prova do bom funcionamento intestinal de Lautrec. 

O meu ponto é: já houve uma compreensão da fotografia cotidiana como algo que transmite uma mensagem. Algo dotado de um contexto que, ao mesmo tempo, retrata e transcende a relação fotógrafo-fotografado. A beleza dessas fotografias não estava somente nas cores, nos contrastes, nos ângulos e no foco, mas numa poesia às vezes alheia e às vezes envolta em tudo isso.

Hoje, para além do bombardeio de imagens que sofremos, há uma grande facilidade de se produzirem e se reproduzirem fotografias, e uma busca pela perfeição por meio de sucetivos disparos à procura do melhor resultado. Acontece que o melhor resultado estético nem sempre está ligado ao melhor resultado poético. O pop matou a poesia, I rest my case.

Recomendo imenso uma visita ao blog Iconic Photos, que faz um apanhado de fotografias deslumbrantes (demorei minutos pra pensar em um adjetivo à altura das fotografias e ainda acho que esse não é suficiente) acompanhadas de comentários muito interessantes.

28 de dez. de 2011

Laranja fluorescente

Hoje completa um ano que eu cheguei a Guimarães. Exatamente 365 dias atrás eu estava na livraria do aeroporto Pinto Martins, acompanhado de minha família e de alguns grandes amigos, procurando algum livro para se unir à minha pessoa durante o vôo Fortaleza – Porto com escala em Lisboa. Minha vida estava prestes a sofrer uma daquelas mudanças singulares e, naquele momento, eu me preocupava em escolher um livro.

Eram muitas capas, muitos gêneros, muitas opções a serem analisadas antes que o portão de embarque fechasse. Alguns minutos se passaram e, finalmente, eu estava com um livro em mãos. Um livro de capa laranja fluorescente do qual eu nunca ouvira falar. Na sala de embarque todo mundo parecia ou feliz ou ocupado demais para demonstrar qualquer emoção. Os monitores avisavam que o vôo atrasaria uma hora e me pareceu um bom pretexto para abrir o livro antes do esperado.

Olhei fixamente a primeira página durante alguns demorados segundos e percorri frases que não me faziam sentido algum. Li e reli incontáveis vezes o primeiro parágrafo esperando que ele libertasse minha cabeça da confusão que, finalmente, se estabelecia. Como costumam dizer: a ficha caiu.

Forcei-me mais um pouco a entrar naquele universo de palavras que iria me guiar por estórias vividas por outras personagens quando, naquele momento, eu estava prestes a escrever mais um capítulo da minha própria história. A ocasião não me favorecia entrar numa estória que não fosse a minha. Não naquele momento, não naquele lugar, não naquele duelo entre saudade e ansiedade que se passava na minha cabeça. Continuei a encarar o livro mesmo assim.

Esforçado para parecer concentrado no livro a quem olhasse de fora, passei a primeira página. Um pedaço de papel caiu no chão e, sem saber do que se tratava, apanhei-o rapidamente. Era uma foto minha e de minha irmã que ela escondera entre as páginas do livro, sem que eu percebesse, quando o pousei sobre a mesa durante meu último lanche antes de passar pela segurança.

Num impulso, levantei-me e corri em direção ao telefone público mais próximo. Liguei a cobrar para casa e tive uma conversa rápida com minha mãe e irmãs cujo teor não me recordo, talvez devido à adrenalina liberada durante aquela tempestade de perguntas que eu fazia a mim mesmo. O que ia acontecer nos próximos dias? E nos próximos meses? E daqui a um ano?

Assim como o livro da capa laranja fluorescente, eu só saberia o que ia acontecer depois que chegasse o final. Não faria sentido algum espiar a última página sem antes percorrer toda a estória, sem antes conhecer os personagens, cenários e situações que ilustrariam o caminho até o fim. Em vez de me preocupar com o final da história e com o destino do personagem, hoje me parece que a pergunta mais adequada a fazer àquela altura seria: Afinal, que livro você quer ler?

16 de nov. de 2011

Entre camisetas #2

Vixe! Quase que esse segundo post não sai. Eu e meus princípios de posts e fotografias autorais. Quem liga pra isso? "A gente não quer saber quem fez, a gente só quer ver"!

Eis que hoje, num passeio agradável pelo WGSN, me deparei com essa t-shirt da marca coreana pushButton. Lembrei de vocês, lembrei do blog, lembrei do Entre Camisetas e, claro, lembrei da Srta. Winehouse, que numa altura destas deve estar na boa com Joplin, Cobain e cia.

Se a saudade da Amy tá grande, não se preocupem: é só esperar até o dia 5 de dezembro, quando será lançado seu 3º álbum. Depois disso, a saudade só aumenta.


Translation
It's been a while since the last post about t-shirts, right? That's because I always try to post original text (and original photos), so I end up taking too long. "Who cares about your excuses? We don't want to know who did it, we just want to see it"!

So, while I was walking today through WGSN, i came across this t-shirt from the Korean brand pushButton. Then I remembered of you guys, and of the blog, and, of course, I remembered of Ms. Winehouse, who might be chilling somewhere over the rainbow with Ms. Joplin, Mr. Cobain and others.

If you miss Amy too, don't worry: on December 5th her third album will be released. Then, after that, you'll miss her for real.



 

4 de nov. de 2011

Found in translation (parte 1)

Uma imagem vale mil palavras, dizem. Quem concorda, levanta a mão. Eu, particularmente, acredito nessa máxima, mas geralmente-quase-sempre é difícil transmitir toda a atmosfera de uma situação em um único frame.

A fotografia, estática por natureza, não permite (ou reduz) a transmissão do movimento do ambiente, e impossibilita que captemos os sons, os cheiros, a temperatura, e outras diversas variáveis que influenciam na nossa percepção do momento e que ficam guardadas no nosso imaginário. Pra quem estava presente no momento, a fotografia pode até evocar a lembrança dessas variáveis e permitir um flashback mais ou menos exato da situação fotografada. Mas como transmitir toda a energia de um momento pra quem não estava lá?

Uma das coisas que mais gosto na Lomografia é isso, a possibilidade de alterar cores, de utilizar sobreposições, de adicionar ruídos na imagem que, justamente por ser "adulterada" (sem recursos digitais), é muito mais fiel ao momento fotografado. É muito mais carregada de sentidos e, às vezes, transmite com uma precisão maior o que se quer transmitir ao observador.

As fotos a seguir, pra mim, traduzem o que acabei de dizer. Foram feitas com uma Holga 135BC + um color flash, num jantar multicontinental no apartamento do Alex, da Elisa, do Evan e do Rob. Gente de todo o mundo falando (ou tentando falar) inglês - o esperanto que deu certo - comendo pratos mexicanos, árabes, italianos e comida congelada, e interagindo com cuidado para não incomodar os vizinhos. Talvez fotografias convencionais não transmitissem tão bem a experiência daquela noite. Ou talvez eu esteja exagerando. Será?

Ps: postei somente uma primeira parte agora e depois publico o restante.


Translation (Part 1)
A picture is worth a thousand words, they say. Raise your hand if you agree. I personally believe in this maxim, but it’s usually-almost-always hard to convey all the atmosphere of a situation on a single frame.

The picture, static in nature, reduce the transmission of motion of the environment and is unable to capture the sounds, smells, temperature and several other variables that influence our perception of that specific situation and that we keep in our imaginary. For those who were present at the time, the picture can evoke the memory of these variables and allow a more or less accurate flashback of the shooting situation. But how to convey all the energy of a moment for those who were not there?

One of the things I love about Lomography is the ability to change colors, using overlays and adding noise to the image, and even though “adulterated” (without digital resources), is much more faithful to the photographed moment. It is fulfilled of sense and sometimes passes with greater accuracy what you want to convey to the viewer.

The following pictures, to me, translate what I just said. They were made with a Holga 135BC + a color flash, at a multicontinental dinner at Alex, Elisa, Evan and Rob’s apartment. People from all over the world speaking (or trying to speak) English – the Esperanto that went right – eating Mexican, Arab, Italian and frozen food, and interacting carefully to not disturb the neighbors. Perhaps conventional photography would not convey so well that night’s experience. Or maybe I'm just overreacting. Am I?

Ps: I've posted only the first part, then I'll publish the rest.